
O cortisol é um hormônio secretado como produto final da ativação do eixo hipotálamo - pituitária - adrenal (eixo HPA), em resposta a situações de estresse, ativando o modo luta ou fuga, que foi extremamente necessário durante todo o processo evolutivo para a perpetuação da espécie. Em níveis controlados, as atuações do cortisol são essenciais para manter a homeostase do corpo à medida que as demandas ambientais pedem a adaptação do nosso corpo.
Um exemplo: durante o exercício físico. Apesar de ser extremamente benéfico para a saúde, o exercício é um fator estressor porque mexe com o equilíbrio corporal: aumenta a demanda da produção de energia, direciona o fluxo sanguíneo para os músculos esqueléticos, eleva a necessidade de oxigênio e produção de gás carbônico, entre outros mecanismos. Uma certa elevação do cortisol nesse momento é fundamental para manter os processos necessários para que o treino tenha andamento, a glicemia fique controlada e as adaptações ao exercício sejam estimuladas. Outro exemplo é o pico de cortisol que temos ao acordar: é graças a ele que ficamos alerta, entramos no estado de vigília e conseguimos realizar nossas atividades.
Porém, o eixo de liberação do cortisol é facilmente desregulado em casos de estresse crônico - muito comuns no dia de hoje - alterando os níveis e sensibilidade dos hormônios que produz. Por isso que muito se fala da necessidade de modulação dos níveis de cortisol, mas isso não significa zerar a quantidade circulante! Até porque, se pararmos para analisar com calma as atividades desse hormônio no nosso organismo, entendemos melhor as suas possibilidades benéficas de atuação.
O cortisol é um glicocorticóide: logo, além de alterar o metabolismo de lipídios, carboidratos e proteínas (para suprir o corpo da energia necessária para lidar com o estresse), também possui atividade anti-inflamatória. A ligação desse hormônio ao seu receptor é capaz de atuar sobre os processos iniciais da inflamação, assim como também auxilia na resolução da mesma. Os mecanismos exatos pelos quais isso acontece ainda estão sendo investigados. De qualquer forma, é válido ressaltar que a resposta inflamatória é um dos mecanismos que a imunidade tem para proteger o corpo contra ameaças externas e internas: é a partir dela que invasores são eliminados, e que processos de reparação tecidual são estimulados. Uma atuação excessiva do cortisol, nesse sentido, pode gerar redução da atividade imunológica, aumentando a susceptibilidade individual à infecções.
Em algumas patologias, entretanto, a imunossupressão e o controle da inflamação são primordiais. Tanto que, quando a descoberta do potencial anti-inflamatório do cortisol foi feita, formas sintéticas desse hormônio passaram a ser produzidas para servir como medicamento.
De uma maneira geral, não devemos temer o cortisol: quando a sua produção e liberação é feita pela glândula adrenal em níveis controlados (ou seja, quando não há estímulo excessivo para tal e a comunicação entre os componentes do eixo HPA funciona adequadamente), esse hormônio é extremamente fundamental para manter a homeostase do organismo, atuando sobre a manutenção do estado de alerta, regulando o metabolismo de macronutrientes para permitir adaptação da produção energética e, ainda, exercendo papel moderador sobre a inflamação.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Coutinho, A. E., & Chapman, K. E. (2011). The anti-inflammatory and immunosuppressive effects of glucocorticoids, recent developments and mechanistic insights. Molecular and cellular endocrinology, 335(1), 2–13. doi: 10.1016/j.mce.2010.04.005
Syed, A. P., Greulich, F., Ansari, S. A., & Uhlenhaut, N. H. (2020). Anti-inflammatory glucocorticoid action: genomic insights and emerging concepts. Current Opinion in Pharmacology, 53, 35–44. doi:10.1016/j.coph.2020.03.003